Projeto Saúde & Alegria

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou neste domingo (2) comunidades indígenas e ribeirinhas da região do Tapajós, no oeste do Pará, acompanhado também da primeira-dama Janja, as ministras Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), da presidente da Funai, Joenia Wapichana, e do ICMBIO, Mauro Pires.

Em meio a um cenário de tensões e insatisfações expressas por movimentos sociais e ambientais quanto à hidrovia do Tapajós e ao avanço da exploração de petróleo na foz do Amazonas, a visita presidencial ocorreu sem grandes atos públicos ou comitivas numerosas. A proposta foi priorizar a escuta direta de lideranças comunitárias e conhecer de perto iniciativas sustentáveis construídas de maneira participativa, que vêm transformando a vida de centenas de famílias na região.

Durante visita à aldeia Vista Alegre do Capixauã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouviu lideranças indígenas como a cacica Irenilce Kumaruara e conheceu iniciativas apoiadas pelo Fundo Amazônia e pelo Programa Cisternas, que integram o corredor de tecnologias sociais do Tapajós. Foto: Ricardo Stuckert.

Ao se dirigir aos moradores, o presidente enfatizou que a presença ali tinha o objetivo de compreender a realidade sem filtros intermediários. “Quando eu vim aqui, eu vim para saber da verdade mesmo. Por isso fiz questão de vir aqui, para dizer que vocês não só existem como têm caráter, dignidade e as necessidades que todo povo brasileiro tem para que os problemas sejam solucionados”, afirmou.

Caetano Scannavino, coordenador geral do Projeto Saúde e Alegria, falou sobre a visita: “Mesmo de forma rápida e com um grupo reduzido, é louvável a vinda de um presidente da República que, em vez de ir apenas às capitais, vem escutar as comunidades, ver a realidade e conhecer soluções construídas com os próprios moradores. Nada substitui uma visita in loco”.

“Ele ouviu as lideranças, que de forma educada deixaram suas mensagens. Cobraram mais proteção dos seus territórios e mais demarcação de terras, isso numa região sob pressão com a expansão do agronegócio e da mineração. Lembraram das secas recordes dos dois últimos anos e pediram ainda mais atenção no acesso à água, saúde, energia, que podem ser vistos como investimentos também de adaptação às mudanças climáticas”, complementou Caetano.

Durante a visita ao corredor de tecnologias sociais do Tapajós, o presidente Lula conheceu o viveiro florestal de Vista Alegre do Capixauã, tecnologia social apoiada pelo Fundo Amazônia/BNDES. Foto: Ricardo Stuckert.

A cacica Irenilce do povo Kumaruara comandou a roda de conversa com o presidente: “A estiagem afetou muita gente por conta que que nós tivemos vários invasores dentro do nosso rio, que vem fazer a pesca ilegal, né? Hoje  a gente tá querendo o reforço do presidente junto ao ICMBio para que eles protejam a gente na hora que os invasores entrarem dentro do nosso território” – destacou.

O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA), representado pelo vice-presidente Lucas Tupinambá, entregou uma carta com demandas dos 14 povos indígenas da região. O documento destacou a urgência na demarcação das terras indígenas, a criação de um Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) em Santarém, o fortalecimento da FUNAI no Baixo Tapajós e o incentivo à agricultura familiar indígena. “Nós, povos tradicionais, vivemos um dos maiores desafios das nossas vidas. Nunca imaginávamos que um dia veríamos o rio Tapajós secar como secou”, disse Lucas.

A presidente da Tapajoara, Maria José Caetano, demandou mais sistemas de acesso à água, ações de energia elétrica, saúde e educação. Na resex existem 98 comunidades, onde vivem mais de 13 mil pessoas. “Precisa avançar muito”, diz ela, que entregou uma carta a Lula com cobranças por na resex.

Lula ainda visitou as iniciativas da aldeia. Dentre elas, ele pode conhecer as tecnologias sociais implantadas pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA) e parceiros. Além de Caetano Scannavino, o médico fundador do PSA, Dr. Eugênio Scannavino Neto, também acompanhou o presidente durante a caminhada pela comunidade, onde funcionam ações dos programas Floresta Ativa, apoiado pelo Fundo Amazônia/BNDES, e Cisternas, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).

Visita à pousada Uka Suri, na aldeia Vista Alegre do Capixauã, tecnologia social apoiada pelo Fundo Amazônia/BNDES e pelo Programa Cisternas/MDS no corredor de tecnologias sociais do Tapajós. Foto: Ricardo Stuckert.

Esses programas reúnem um conjunto de tecnologias sociais — soluções simples, de baixo custo e alta eficiência desenvolvidas com a participação das comunidades — voltadas ao acesso à água potável, saneamento, energia solar, turismo de base comunitária, produção sustentável e infraestrutura básica. São cisternas de captação de chuva, sistemas de abastecimento movidos a energia solar, banheiros ecológicos, fossas sépticas, Pousadas ecológicas, unidades básicas de saúde fluvial e viveiros florestais que fortalecem o bem viver das famílias amazônicas.

Durante a agenda, o médico Eugênio Scannavino apresentou ao presidente e à equipe ministerial a proposta do PSA de criação de Territórios de Saúde, Cidadania e Clima — uma evolução do antigo programa federal “Territórios da Cidadania”, mas com definição participativa e integrada, a partir das realidades locais.

“Falamos das tecnologias sociais integradas e da ideia dos Territórios de Saúde, Cidadania e Clima. A proposta é que cada território seja autodefinido — pode ser uma comunidade, uma unidade de conservação, um bairro ou um município — e que a partir dele se construam diagnósticos, planos participativos e sinergias entre políticas públicas e experiências locais”, explicou Eugênio. A proposta foi bem recebida pela comitiva presidencial. “O presidente reconheceu que esse era um dos melhores programas de seu primeiro governo, e o ministro Padilha se comprometeu a anunciar essa ideia na COP-30”, afirmou.

Lideranças indígenas, ribeirinhas e representantes do governo federal se reuniram na aldeia Vista Alegre do Capixauã, em Santarém (PA), para dialogar sobre políticas públicas e conhecer tecnologias sociais que fortalecem a vida nas comunidades do Tapajós. Foto: Ricardo Stuckert.

O presidente também conheceu a pousada comunitária de Vista Alegre e o viveiro agroflorestal da aldeia, apoiados pelo Fundo Amazônia a partir da parceria entre o PSA, cooperativas e o Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém.

“Pudemos também falar das UBS da Floresta, apoiadas pela Fundação Banco do Brasil, onde temos melhorado a resolutividade da atenção primária em áreas remotas com telemedicina, sala de vacina, nebulizadores e outros equipamentos. O presidente se interessou muito em saber como funcionam os sistemas fotovoltaicos de abastecimento e tratamento de água, o que tem reduzido bastanre as diarréias e doencas de veiculação hidrica. São tecnologias de baixo custo, movidas a energia solar e geridas pelos próprios moradores. Hoje, investimento em acesso à água, por exemplo, é também medida de adaptação climática, um dos temas centrais da COP-30”, destacou Caetano.

Presidente conhecendo maquetes de sistemas de abastecimento de água e saneamento rural apresentados pelo Projeto Saúde e Alegria, durante visita ao corredor de tecnologias sociais do Tapajós, em Santarém (PA). Foto: Ricardo Stuckert.

O encontro terminou com o compromisso do governo em articular diversos ministérios para atender às demandas apresentadas pelas lideranças indígenas e ribeirinhas. Entre as prioridades estão o fortalecimento da saúde comunitária, a ampliação do acesso à água e à energia solar e o apoio a cadeias produtivas sustentáveis.

“O que o presidente gostou do trabalho do Saúde e Alegria é que ele ele conecta saúde, saneamento, agroecologia, restauração florestal, turismo comunitário, educação ambiental… — é uma visão integrada de território”, destacou Caetano. “Saúde, educação, energia, comunicação e terra não são favores. São direitos”, reforçou.

Para o PSA, a presença do presidente da República nas comunidades do Tapajós reforça a importância da Amazônia como laboratório vivo de soluções climáticas e sociais. As experiências conhecidas por Lula — apoiadas pelo Fundo Amazônia/BNDES e pelo Programa Cisternas/MDS — exemplificam o papel das tecnologias sociais na redução das desigualdades, promoção da cidadania e enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas.

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