
Plano discutido pelas organizações indígenas Munduruku propõe fortalecimento de atividades de proteção do território, fortalecimento das associações indígenas, soberania alimentar e geração de renda
Voltado à proteção territorial e fortalecimento das organizações indígenas Munduruku, um novo projeto foi lançado no Alto Tapajós. Executada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), com a parceria local do Projeto Saúde e Alegria (PSA), a iniciativa terá duração de cinco anos e foi construída em diálogo com as próprias aldeias, envolvendo seis organizações do território, incluindo coletivos de mulheres, produtores e movimentos de base.
O encontro realizado na sede do Projeto Saúde e Alegria, em Santarém, reuniu lideranças Munduruku, representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e do PSA para somar esforços no apoio ao PGTA (Plano de Gestão Territorial e Ambiental) das Terras Indígenas do Alto Tapajós – TIs Munduruku e Sai Cinza.
“Muito boa reunião entre lideranças Munduruku, IEB, MPI, FUNAI, WWF e Projeto Saúde & Alegria pra somarmos esforços no apoio ao PGTA (Plano de Gestão Territorial e Ambiental) dos TIs do Alto Tapajos. Em pauta, a proteção dos territórios, o fortalecimento das organizações indígenas, soberania alimentar e alternativas econômicas ao garimpo”, destacou o coordenador geral do PSA, Caetano Scannavino.
É um projeto articulado pelo MPI para apoiar o PGTA junto a etnias também de outras regiões. Tem duração de cinco anos, sendo o primeiro mais de preparação (2025), o ultimo de sistematização/relatoria geral (2029), com a execução direta no triênio 2026-2028, prevendo três grandes componentes: a proteção dos territórios, o fortalecimento das organizações indígenas, e o suporte à soberania alimentar e geração de renda.

A coordenadora do Programa Povos Indígenas do IEB, Marcela Menezes, destacou que a ação integra um esforço nacional de conservação. “Estamos aqui em Santarém pelo projeto Ywy Ipuranguete, que significa terra boa, terra bonita. É um projeto de conservação da diversidade em 15 terras indígenas no Brasil, coordenado pelo Ministério dos Povos Indígenas, com a colaboração da FUNAI, financiado pelo Fundo Global para Biodiversidade, em que o FUNBIO é o implementador e o IEB o executor”, explicou.

Na região do Tapajós, o trabalho é desenvolvido junto às terras indígenas Munduruku e Saí Cinza, em parceria com o PSA. “É um projeto que busca apoiar ações diretas nesses territórios. O plano de implementação vai ser construído junto aos Munduruku, com as suas organizações, a partir das suas iniciativas de cuidar do território, de fazer a proteção e a gestão”, disse Menezes.
“É um projeto fundamental, primeiro pelo fato de ser construído a partir das representações indígenas com o apoio técnico dos parceiros. Segundo, pela oportunidade para se implementar estratégias mais efetivas de proteção num território altamente pressionado, visando também a emancipação dos povos ao fortalecer as associações locais e coletivos indígenas na gestão de suas terras”, com mais autonomia e menos dependência, inclusive de ONGs”, explicou o coordenador geral do PSA, Caetano Scannavino. A proposta também aponta para “soluções para soberania alimentar e geração de renda, importante numa área impactada por garimpos, com o desafio de construir alternativas econômicas que possam transitar de uma prática predatória para uma economia com a floresta em pé e rios sem mercúrio”.
Para Ediene Munduruku, liderança do Alto Tapajós, o projeto representa a continuidade e o reforço das ações indígenas. “A gente tá com muita expectativa de que o nosso movimento vai continuar fortalecido. Não é um início da nossa luta, é um fortalecimento e complementação das nossas ferramentas, que a gente já tem”, afirmou. Ela lembrou que a dimensão do território exige apoio constante: “O nosso território é grande, o povo Munduruku é grande e nós estamos trabalhando em sete territórios. A gente precisa sempre fortalecer o apoio para manter um instrumento forte de combate às situações que atingem a região, desde a devastação promovida por empresas até os efeitos das mudanças climáticas”.
Entre as principais ameaças enfrentadas, cita a continuidade do garimpo, mesmo após a desintrusão recente, além da seca e da alteração no regime dos rios. “Os rios tão secando, os peixes tão morrendo e as aldeias ficam sem água. A gente também tá sofrendo com o impacto dos empreendimentos instalados no Rio Tapajós, que têm afetado as lagoas e causado o sumiço de peixes”, relatou.
”Tivemos mais um momento de desintrusão dos garimpos na região, o que é uma boa notícia. A outra é que esse projeto pode ser uma luz para que essa desintrusão tenha vindo pra ficar. Não queremos que se repita aquele ciclo de retirar e, passado um tempo, vermos novamente o retorno dos garimpeiros ilegais. No que pudermos ajudar no bem-viver dos Munduruku, sabem que podem contar conosco”, finalizou Caetano Scannavino.
O Encontro no PSA foi um passo inicial, para então começar a organizar a discussão do Projeto dentro dos territórios, ainda nessa fase de preparação, com reuniões das associações, assembleias, e rodadas nas aldeias.