Projeto Saúde & Alegria

Atividade integra a Rede Conexão Povos da Floresta, em parceria com o Projeto Saúde e Alegria, Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) e WWF Brasil, e fecha o ciclo iniciado em outubro, quando o grupo começou o módulo a distância

No período entre 1º e 5 de dezembro, comunitários indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos de diferentes territórios da Amazônia se encontraram no Centro Experimental Floresta Ativa (CEFA), na comunidade Carão, Resex Tapajós-Arapiuns, para a fase presencial da 1ª Formação de Agentes Comunitários de Energia.

Ao longo de cinco dias, quem já lida com sistemas de energia solar nos territórios passou a olhar para aquilo que vive no dia a dia também como um campo de estudo, organização e defesa de direitos. A formação surgiu das demandas das próprias comunidades conectadas pela Rede Conexão Povos da Floresta.

A 1ª Formação de Agentes Comunitários de Energia foi desenhada coletivamente no Grupo de Trabalho de Energia da Rede. Sabrina Costa, coordenadora de operações da Rede Conexão Povos da Floresta, lembra o caminho percorrido até chegar à etapa presencial no CEFA: “O curso agente comunitário de energia vem sendo desenvolvido e planejado com muito carinho pelas pelas organizações que são membros da Rede Conexão Povos da Floresta e atuam especificamente ali no GT Energia. A gente espera, em 2026, que esse curso esteja ainda mais robusto e a gente possa escalar nos outros territórios.”

O Projeto Saúde e Alegria ressalta que a formação dialoga com o eixo de infraestrutura comunitária e com o histórico da organização como espaço de testes e arranjos de energia renovável para comunidades. Jussara Salgado, coordenadora de infraestrutura comunitária do PSA, explica que a proposta vai além da técnica e toca em direitos básicos: “A formação tem por objetivo levar conteúdos de acesso à energia para comunidades que não têm esse direito, que são não são assistidas por esse direito, não recebem o acesso à energia da rede e acabam recorrendo a outras fontes.” Ela reforça o foco na autonomia dos territórios:

“A finalidade do curso é conseguir fortalecer essas comunidades para que elas possam fazer a sua própria gestão e tenham autonomia também para a manutenção desses sistemas, para operação, para saber o que pode, o que não pode ser ligado e dessa forma não dependam de uma mão de obra da cidade.”

Vinícius Oliveira da Silva, pesquisador do IEMA, conselheiro e facilitador do GT de Energia da Rede, destacou: “O curso de formação de agentes comunitários de energia foi um curso demandado pelas próprias comunidades que fazem parte da Rede Conexão Povos da Floresta. Essas Comunidades tinham muitas demandas de como operar os sistemas energéticos, problemas de segurança, falta de energia.”

A formação também dialoga com o Sandbox Regulatório do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), aproximando legisladores, concessionárias e comunidades. Letícia Lengruber, especialista em regulação da ANEEL, relaciona esse encontro à construção de políticas de universalização da energia: “É super importante uma formação como esta, porque ela aproxima dois mundos: o mundo das comunidades e o mundo institucional do governo.” Para ela, o papel dos agentes comunitários vai além da compreensão técnica: “Os agentes comunitários de energia são fundamentais para que a gente possa ter a energia de forma perene e sustentável aqui nessa região da Amazônia, região de sistemas isolados.”

No centro do processo, estão as experiências concretas das comunidades. Reginalva Godinho, da comunidade Ana Rio Arapiuns, na Resex Tapajós-Arapiuns, fala a partir da vivência de quem enfrenta o custo alto de motores a diesel e sistemas solares instalados de forma precária: “Estar aqui no curso é um desafio e, ao mesmo tempo, é muito importante para nós mulheres, para nós, lideranças que estamos atuando nos territórios.” Ela leva a discussão da energia para o cotidiano: “A qualidade da energia dentro das comunidades é muito importante, porque ela é o meio de tudo, da saúde, da educação; ela pode salvar vidas através da conectividade.”

Na comunidade quilombola Jarauacá, em Oriximiná, o sistema solar chegou há menos de um ano e já trouxe desafios de manutenção. Ildimar dos Santos, facilitador comunitário da Rede Conexão Povos da Floresta, vê no curso uma mudança concreta de postura em relação aos equipamentos: “Muitas famílias têm sofrido com os problemas que tem dado em alguns sistemas. Então, para mim tá sendo muito importante ter aprendido a fazer o cálculo, o levantamento de carga que na comunidade não tínhamos essa ideia de do que utilizar no nosso sistema.” Ele já se enxerga atuando como referência técnica no território: “Bom, a partir desta formação, vai mudar um pouco a minha vida e da minha comunidade. Eu vou poder me qualificar profissionalmente e poder ajudar os comunitários do meu território”.

No Tapajós, Marcelo Rodrigues, da comunidade Samaúma, participou da formação unindo o trabalho como agricultor e a prática de “eletricista nas horas vagas”: “Eu já trabalho com energia já faz mais de 2 anos, embora sendo de forma irregular”. A partir do curso, ele reorganiza o jeito de olhar para o próprio ofício: “O que me chamou a atenção e ficou interessante e que eu posso levar para lá é o uso correto da energia. Para mim, também em termos técnicos, vai servir muito. A gente trabalha muito na prática sem conhecimento técnico e aqui está sendo muito passado isso”.

As organizações quilombolas também estão dentro da construção da metodologia. Adimar Castro, técnico ativador do projeto Conexão na Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), enfatiza o papel do facilitador como ponte entre formação e território: “Uma vez que o que o facilitador das comunidades vem para essa formação, ele volta para a comunidade para levar essa informação para sua população. Então, é uma ferramenta que o Conexão usa para potencializar essas buscas por políticas públicas para a comunidade”. Ele fala a partir da própria trajetória quilombola: “Então, se tu leva uma ideia para tua comunidade, já é muito enriquecedor”.

Rodrigo Lima, técnico do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), reforça como a formação dialoga com realidades de difícil acesso, onde sair para fazer um curso é um obstáculo: “Isso aqui é de total importância para esses facilitadores. Esse curso aqui, essa formação é essencial para eles como comunitários, principalmente pela área da segurança e pelo difícil acesso”.

Uirá Tapuia, técnico que representa a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) aponta o curso como base para desenhar sistemas de energia adequados aos territórios e relaciona energia solar, crise climática e integridade dos territórios: “Então é muito importante esse sistema que a gente tá trabalhando que é de energia solar. Pensar em um sistema de energia solar, que seja fácil de transportar, de instalar e que os próprios  parentes possam operar e fazer manutenção é muito importante”.

Parceiros técnicos também estiveram presentes na condução dos módulos. Alessandra Mathyas, do WWF Brasil, liga a formação à necessidade de quadros locais capacitados para acompanhar e cobrar o serviço das empresas: “É muito importante esse primeiro curso de agentes comunitários de energia que está sendo promovido pela Rede Conexão Povos da Floresta, da qual o WWF faz parte”. Ela lembra a história do próprio CEFA nesse tema: “Não tinha outro lugar para a gente começar com esse nosso projeto piloto, se não fosse aqui, onde já saíram alguns eletricistas do sol aqui para região de Santarém”.

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