
Oficina promovida pelo Projeto Saúde e Alegria reuniu profissionais de saúde, educação, assistência e conselhos para alinhar o fluxo de atendimento em casos de violência e outras violações
Uma capacitação realizada pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA), em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e a Fundação Van Leer, reuniu nesta semana profissionais de diferentes áreas para reforçar o fluxo de atendimento em situações de urgência envolvendo crianças e adolescentes. O encontro integrou conselheiros tutelares, enfermeiros de comunidades ribeirinhas, agentes de saúde, lideranças comunitárias e educadores para esclarecer responsabilidades e fortalecer a articulação entre órgãos que atuam na linha de frente da proteção. A oficina ocorre em um momento decisivo, quando o município avança na implantação de um fluxo integrado que orienta, passo a passo, o que cada instituição deve fazer diante de um caso de violência.

Efraína Barbosa, assistente social do PSA e integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, destaca que o foco do encontro é garantir que todas as peças da rede conheçam o caminho correto para acionar serviços e assegurar respostas rápidas nas comunidades. Ao explicar o avanço coletivo, ela lembrou que muitas vezes a população não sabe a quem recorrer, o que pode atrasar o atendimento em situações graves. Para ela, a clareza dos papéis é essencial para evitar que casos se percam no percurso. Efraína reforçou que “criança tem direito de ser protegida. E o abuso sexual é crime e o agressor deve ser punido.”
A programação começou com uma discussão sobre os próprios cuidadores (professores, enfermeiros e lideranças) que precisam estar preparados emocionalmente para lidar com denúncias ou sinais de sofrimento. Também foram debatidos os problemas que a comunidade pode resolver localmente e aqueles que exigem ação direta do poder público. Na etapa dedicada ao fluxo, Efraína explicou como funciona a articulação entre saúde, assistência, educação, conselhos e órgãos de segurança, e como o município organizou o caminho de atendimento para tornar as respostas mais eficientes, especialmente nas comunidades dos rios Tapajós e Arapiuns, onde o tempo de deslocamento impacta diretamente a proteção.

A arte-educadora Elis Lucien, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, contou que o fluxo integrado nasceu de um processo de dois anos de formações internas, reuniões e testes com instituições públicas e organizações sociais. O objetivo foi corrigir falhas históricas no atendimento, sobretudo nas áreas ribeirinhas, onde havia dúvidas sobre quem acionar em casos de violência sexual ou ausência escolar prolongada. Ela destaca que agora “cada órgão tem o seu papel”, o que permite que escolas, unidades de saúde, conselhos e forças de segurança tomem decisões mais rápidas e coordenadas. Elis explicou ainda que o fluxo permanece aberto para ajustes, pois sua implementação nas comunidades revelará novas necessidades e pontos de melhoria.
A conselheira tutelar Camila Corrêa, do Conselho Tutelar 3 de Alter do Chão, reforçou como a participação do conselho nesse tipo de formação ajuda a esclarecer atribuições e reduzir tensões entre instituições que dividem responsabilidades nas comunidades ribeirinhas. Para ela, reunir os órgãos para explicar seus papeis “clareia e até facilita também o nosso trabalho”. Camila lembrou que o conselho atua em toda a extensão de Alter do Chão, Pajuçara e nas comunidades do Arapiuns, Tapajós e Arapixuna, mas enfrenta desafios para chegar a localidades mais distantes devido à falta de transporte próprio. Mesmo com essas limitações, o atendimento é ininterrupto: “a gente fica 24 horas, 24 horas mesmo”.
Ela explicou que, nos casos de violação de direitos, o fluxo facilita não apenas o atendimento imediato, mas também a comunicação entre os profissionais e a população, que agora sabe para onde ligar, como denunciar e quem acionar primeiro. Entre as regiões mais difíceis de alcançar estão Cachoeirinha do Mentai, Alto Mentai e Cachoeirinha do Maró, onde o deslocamento exige embarcações adicionais e depende da liberação de viagens. Para a conselheira, a falta de transporte é um dos maiores obstáculos, mas não reduz o compromisso de garantir que cada denúncia chegue ao destino certo.
Ao final da capacitação, enfermeiros, agentes de saúde, lideranças e educadores receberam o fluxo impresso e digital, permitindo que as comunidades avancem na consolidação de um sistema de proteção mais ágil, claro e eficiente. As instituições reforçaram que a efetividade do processo depende da denúncia, do engajamento comunitário e da capacidade da rede de trabalhar de forma articulada, uma construção que, para todos os envolvidos, está apenas começando.