
A comunidade de Monsarás, em Salvaterra, recebeu nesta segunda-feira (17) a Unidade Básica de Saúde reformada no âmbito do Projeto UBS da Floresta, iniciativa do Projeto Saúde e Alegria, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Salvaterra, com apoio técnico do IEPS e financiamento da Fundação Banco do Brasil. A entrega ocorreu em meio ao processo de implementação das 24 unidades previstas pelo projeto, incluindo seis no Marajó, e mobilizou moradores, equipes de saúde e lideranças locais em torno do fortalecimento da atenção primária na região.
A cerimônia de entrega ocorreu com festa e apresentações do Gran Circo Mocorongo, um momento de alegria e celebração. O médico, fundador do PSA e coordenador do PSA, Eugênio Scannavino, destacou que o modelo nasceu para ser apropriado pelo SUS, “ajudar a desenvolver tecnologias sociais que possam se multiplicar em larga escala e através do governo”, reforçando que a proposta não é substituir políticas públicas, mas fortalecê-las. Ele lembrou que a iniciativa já começa a se consolidar como política pública, com a presença do Ministério da Saúde na entrega de uma UBS em Santarém, Pará. “No Marajó é mais um modelo demonstrativo”, especialmente em um território marcado por alguns dos piores indicadores sociais do país.

Também emocionado com a expansão do modelo para o arquipélago, o coordenador-geral do PSA, Caetano Scannavino, relacionou o momento à agenda global da COP 30, que ocorre paralelamente no estado do PA. Para ele, buscar soluções concretas é fundamental em meio à crise climática: “A gente precisa mostrar o que está dando certo. Porque é isso que dá esperança num mundo que caminha para uma situação cada vez mais difícil.”

Assim como em muitas comunidades da Amazônia, as mudanças climáticas têm impactado a vida dos moradores da ilha do Marajó, que relatam aumento das ondas de calor, secas extremas, queda da vazão dos igarapés e a maior incidência de incêndios florestais, dificultando as condições de vida da população. Caetano reforçou que esse contexto exige cada vez mais que os territórios tenham acesso a tecnologias que contribuam para a adaptação climática, especialmente no campo da saúde.
Por isso o modelo UBS da Floresta prevê a adequação dos postos de saúde com equipamentos modernos que respondem tanto aos desafios logísticos quanto aos de atendimento diante dos fatores climáticos.
O kit tecnológico inclui sistemas de internet de banda larga em parceria com a Rede Conexão Povos da Floresta para notificações remotas, telessaúde com especialistas, eletrocardiograma, nebulizadores para atendimentos a problemas respiratórios, geladeira para armazenamento de vacinas, entre outros equipamentos. O modelo envolve também um forte componente de formação dos profissionais de saúde, educação para prevenção junto à população, e controle social junto aos movimentos sociais parceiros locais, para que os modelos funcionem de fato.
A técnica de enfermagem Alessandra Leite relatou que a vacinação antes era possível apenas uma vez por semana, com transporte de vacinas em cooler. Agora, com sala própria, “dá para atualizar tudo todo dia”, o que reduz deslocamentos e garante maior regularidade no atendimento.

A inauguração contou com a presença de autoridades municipais. A secretária de Saúde de Salvaterra, Gabriela Portal, lembrou que a iniciativa chegou ao município por meio da mobilização das comunidades quilombolas e afirmou que o envolvimento da população foi determinante durante a obra e a organização da entrega. Garantir saúde no território é necessário, principalmente em áreas sem transporte público: “É motivo de muito orgulho para a gestão municipal fazer parte disso.”
A representante da SESPA, Cléa Nobre, destacou que o projeto respeita a ancestralidade e os modos de vida das populações tradicionais. Ela explicou que a secretaria está em processo de credenciamento da equipe para utilização dos equipamentos e tecnologias instalados.
O pesquisador da Fiocruz e presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, Carlos Fidelis, ressaltou que iniciativas construídas com a comunidade e com parceiros são “merecedoras de todos os aplausos”, e que levará a experiência ao Conselho Nacional de Saúde.

Antes da reforma, o antigo posto estava deteriorado pela umidade no território. Telhado comprometido, paredes com mofo e ausência de sala de vacina dificultavam a rotina de quem trabalha no local e dos pacientes. A reforma estrutural, reorganização das salas e a chegada de novos equipamentos incluindo geladeira para imunização, autoclave odontológica, aparelho de ecocardiograma e conectividade estável mudaram o cenário. A enfermeira responsável pela UBS, Emily Monteiro, explicou que “Agora a gente consegue atender mais pessoas e fazer mais procedimentos”. Ela destacou ainda que a internet permitirá regularizar o fluxo de informações para o sistema do SUS, algo antes inviável por falta de conexão.
O líder da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará – MALUNGU, parceira da iniciativa, e coordenador do Comitê Regional do Marajó do PSA, José Luiz Souza, lembrou que a escolha de Monsarás foi definida com base nas demandas levantadas diretamente pelas comunidades. Ele ressaltou a urgência do fortalecimento local da Atenção Primária diante das dificuldades de remoção de pacientes graves, quase sempre dependentes de balsas e longas esperas por leitos na capital: “O tempo faz toda a diferença. Já teve vários óbitos no meio do caminho.” Para ele, a chegada da unidade estruturada representa um primeiro passo enquanto soluções maiores como um hospital regional ou sistemas de resgate aeromédico não alcançam todas as comunidades do arquipélago.
O vice-prefeito Neivaldo Nascimento considerou a entrega um marco para o município, destacando que a distância entre Monsarás e a sede sempre foi um obstáculo. Para ele, o novo equipamento “vem melhorar a vida dos nossos munícipes”, agradecendo as parcerias que viabilizaram o projeto.
Projeto UBS da Floresta
O Projeto UBS da Floresta é uma iniciativa do Projeto Saúde e Alegria, em parceria com prefeituras, apoio técnico do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e financiamento da Fundação Banco do Brasil. O projeto surgiu para qualificar a Atenção Primária à Saúde em áreas rurais remotas, articulando infraestrutura adequada, energia renovável, equipamentos modernos, conectividade, formação de profissionais e mobilização comunitária. Ao todo, contempla 24 unidades: 12 em Santarém, 6 em Jacareacanga e Itaituba e 6 no Marajó. A proposta busca fortalecer o SUS e contribuir para a disseminação de modelos replicáveis em escala, especialmente em territórios ribeirinhos, indígenas e quilombolas da Amazônia.